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Nonato Sanfoneiro

Nonato é um dos poucos moradores da Reserva Extrativista do Alto Juruá que possui uma sanfona. Seu fascínio pelo instrumento vem desde criança, quando improvisava e fantasiava com o que tinha à disposição. “Às vezes eu pegava aquelas palhas de cocão. O olho da palheira, eu cortava aquele rolinhozinho assim, puxava e fazia aquela sanfoninha, que nem uma sanfona. Era puxando e assoviando, né, fazendo que era a música. Era a vontade de ter uma sanfona. Que eu via a sanfona só em foto, né? Às vezes eu via aqueles tocadores e via a foto da sanfona e tinha vontade. Eu via nas fotos o Trio Nordestino e a sanfona, né? O Noca, também a gente via a sanfona dele. Aí, eu tinha vontade. Hoje ninguém vê mais, mas de primeiro tinha o Zé do Ó, que era um sanfoneiro, que tinha foto dele puxando a sanfona aqui e eu olhava e dizia: ‘Eu ainda consigo uma sanfona dessa’.
Apesar da vontade de ter uma sanfona, seu primeiro instrumento foi um violão, que Nonato perdeu quando voltava de uma festa. Ele vinha pra casa com tanto sono depois da festa que caiu no caminho e quebrou o violão. Depois disso ele foi ajudar um primo seu a cortar seringa e, em troca, ganhou uma sanfona, onde começou a tocar suas primeiras notas.
Nonato sempre teve fama de ótimo tocador e era chamado para animar as festas nos seringais. “Na época em que eu me formei pra tocar, Deus me livre, não tinha quem tocasse, não. Era só eu mesmo. Era convidado pra uma festa, convidado pra outra, era assim. Chegava numa festa e já era convidado pra outra. Não existia esse negócio de gravador não, aparelho era pior. Era só na sanfona mesmo e no violão”.
Até hoje Nonato toca em festas com sua sanfona, mas ele não aceita participar de qualquer festa. “Eu achava bom tocar em festa. Ainda hoje eu acho. Se tivesse festa pra nós, só pros velhos, eu tocava. Sendo convidado eu vou mesmo e toco. A animação, né, eu achava bom. Hoje eu não vou pra festa porque as festas de hoje eu não acho mais bom, porque ninguém entende, sabe, porque o toque é pra um lado e a dança é pra outro. De primeiro as festas eram festa. Dançava pelo jeito do toque, da música. Hoje a música é pra um lado e a dança é pra outro, é pulando, né?”

Ouça: Nonato Sanfoneiro e Elimar Kaxinawá – Minha Infância

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