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Peba

Dos treze irmãos de Peba, todos os homens aprenderam a tocar violão. Ele se lembra que aprenderam juntos, com a ajuda de um tio deles, mas que cada um criou seu estilo próprio de toque. “O violão nunca a gente aprende tudo. Um faz um pouco, o outro já faz mais. E, se unidas as forças, você pode aprender de um e de outro. E, assim, as pessoas tão tocando até que dá pra ouvir, que não faz vergonha tocar em qualquer lugar que for preciso. Assim, se dedique e procure fazer o que o seu coração pede. Porque aí vem amor que você solta ali. Aquilo que você faz com amor, você aprende mais, todo tempo assim. Eu aprendi mesmo das pessoas dos moradores da Reserva… da Reserva não, da floresta, que já viviam aqui antes. Veio dos avós, dos bisavós”.
Como morador da floresta, Peba cortou muita seringa quando era mais jovem e viveu a humilhação dos patrões. “A gente não tinha direito a nada no tempo dos patrões porque nosso direito era engolido. Porque, de repente, quando o patrão chegava, botava o pé na parede, ia dizendo assim: ‘Se não tiver borracha também não vou te vender sequer o valor de uma agulha. Vocês vão ter que fazer a borracha e não vão ter direito de vender pra outra pessoa a não ser pra mim. Pois eu sou o dono do seringal e toda produção que existir dentro do seringal é minha‘. E nem era verdade, porque a produção, hoje em dia nós sabemos, é de quem faz e não dos outros que estão lá fora. Nós não conhecíamos o nosso direito e aceitávamos toda a proposta dele porque tinha que aceitar. Se a gente não aceitasse, ia na nossa colocação, tomava as estradas de seringa, expulsava a gente da colocação. […] Quando eu nasci meus avós e meus bisavós todos já eram seringueiros, já velhinhos. Eu não sabia, mas quando eu passei a entender a vida era assim. Imagine pra trás, o que meus avós, meus bisavós não passaram na humilhação dos próprios comerciantes, patrões. A vida do seringueiro antigamente foi muito triste. Triste mesmo. E uma vida que as pessoas viveram porque não tinham conhecimento de nada e o jeito que tinha era passar por essa fase ruim, que todo seringueiro da minha idade sofreu muito. Hoje em dia não. O jovem não conhece mais essa dificuldade. As portas estão abertas, de maneira que, hoje em dia, conhece o seu direito. Chegou o conhecimento que nós podíamos ser também reconhecidos como cidadãos brasileiros, porque nem documento não existia pra gente. Portanto eu não tenho o que contar nada de bom no tempo dos patrões. Só tenho que contar as coisas difíceis e o momento que nós vencemos, vivemos!”

Ouça: Peba – Quero Ficar do Seu Lado

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